Avó – Mãe com água e açúcar
Foi ela quem me ensinou a jogar cartas, bordar e fazer arroz. Foi na casa dela que tive minhas experiências gastronômicas mais loucas, como por exemplo, comer picolé de carne crua e cosméticos .
Ela sempre esteve ali, nunca era o foco. Passava o dia ali, bem escondidinha, mas em qualquer aperto ela entrava em cena. Sempre estava presente em datas comemorativas e dias comuns. Sempre fazia sua visita matinal, e dava a passadinha antes de ir pra casa.
Durante as horas que vigiávamos o teu corpo já sem vida, um filme foi passando na minha cabeça. Lembrei de coisas que ocorreram a mais de 15 anos. Fatos tão bobos mas tão nossos que não pude deixar de escrever sobre eles.
Uma das primeiras coisas que me lembro com clareza, ocorreu quando eu tinhas uns 3 anos. Me lembro que era inverno e tu ias passas horas das tardes na minha casa. Quando tava perto do momento de ires embora, eu pegava a tua “niclera” e escondia no meio dos meus ursos. Quase nunca tu te lembrava de pegar de volta. Só te davas conta que tavas sem ela, quando chegavas em casa e vias que a chave tinha ficado dentro dela e com isso, tinhas que voltar pra pegar.
Me vejo, mais baixa que o balcão pia, tendo que ficar de ponta de pés pra poder enxergar o que tavas fazendo. Eu ficava ali, pendurada até te convencer que aquela carne crua congelada que tu picavas, era uma delicia. Tu ias me dando as lasquinhas e me falando pra não contar pra ninguém (minha mãe) ela nunca entenderia. Mas a verdade é que aquela carne congelada era uma delicia.
Quantas vezes tu passou vergonha ao ir mostrar algum produto da Avon pra uma cliente e o produto estava pela metade, ou roído. Se eu tivesse na tua casa e desaparecesse era fato que estava embaixo da cama, comendo um batom. Muitos tapas levei da mãe por causa disso. Além de ficares com os cosméticos estragados, ainda me defendias pra eu não apanhar.
Minha vó, era a pessoa que alimentava meu vicio por balas e demais guloseimas . Sempre me trazia um chips e um “ tablete de pastilhas”
Eu amava escutar suas histórias sobre o passado, olhar os álbuns de fotos antigas e mexer no seu porta-jóias.
Cada vez que conversávamos, eu falava como se vivesse à 50 anos atrás. Ficava usando todas as gírias e palavras que ela usava, só pra deixá-la num ambiente confortável pra se abrir.
Quantas vezes passamos horas só falando mal da mãe. Ela sempre era nosso assunto preferido.
Tu te foi, sendo grata por eu estar ali, cuidando de ti. Mas sou eu que tenho que te agradecer. Muito obrigada por sempre me esperar pro almoço com batatinha frita. Muito obrigada por sempre fazer meu doce preferido, acho que nunca mais vou comer um doce de abóbora que me sentir todo o prazer que o teu doce me proporcionava. Muito obrigada, por todas as vezes que tu fez bolinho de batata pra mim. Muito obrigada, por passar horas jogando carta comigo, só pra me entreter. Muito obrigada por me ensinar valores como o respeito e a calma. Muito obrigada por ter permanecido na minha vida durante 20 anos.
Por mais que estas palavras nunca tenham sido pronunciadas por nós, EU TE AMO, e sei que tu me amas também.
Nair Maximila Siqueira, 15/03/1933 – 01/04/2012
